2 de junho de 2026 · ia, saas, produto

A IA não escolhe a sua dor

A IA escreve o código em horas. Mas qual problema resolver, quando lançar e o que o mercado responde — isso ela não faz. A história de um SaaS solo, do zero a R$ 100k em 92 dias.

Todo print de "fiz um SaaS em 3 dias com IA" esconde a mesma coisa. O código não — esse a IA escreve mesmo, em horas. O que o print não mostra é o que ela não faz por você: escolher qual problema vale a pena resolver, decidir a hora de lançar, e ler o que o mercado responde.

Eu construí um SaaS sozinho no começo deste ano: a Karvi (na época, DevProfile). Do zero ao ar em 3 dias, R$ 100k em 92. Sem sócio, sem time, sem investidor. Mas os 3 dias montaram em cima de 20 anos, e o que separou isso de mais um protótipo bonito não foi a ferramenta. Foi tudo que ela não decide sozinha.

20 anos em 3 dias

Os "3 dias" são verdade. Mas eles montaram em cima de 20 anos que não aparecem no print.

Eu não comecei do zero. A base eu já tinha de outros produtos meus no ar: login, pagamento, o gateway de IA, tudo testado em produção. Os 3 dias foram para construir o que era novo, não para refazer o que eu já tinha resolvido dez vezes.

Eu sei dirigir a IA. Largada sozinha, ela te entrega um protótipo bonito que cai na primeira esquina. Quando ela me dava o caminho complicado, eu jogava fora e mandava simplificar. Quando ela queria sair arquitetando, eu parava e validava com dado real antes. Vinte anos viraram isso: saber o que pedir e farejar quando a resposta veio torta.

E sei o que não construir. Metade da velocidade é cortar. A feature que parece óbvia mas não move ponteiro, a integração que todo mundo colaria só porque dá, o atalho que cobra juros lá na frente: disse não para todas. Isso não vem no tutorial, vem de ter errado por muito tempo.

A ideia que eu não tive que procurar

Eu não achei a ideia, eu era o cliente.

Naquele começo de ano resolvi arrumar meu LinkedIn e esbarrei na minha própria dor: estava abandonado. Largado, sem graça, sem dizer nada do que eu sabia fazer — bem na hora em que ele era o meu cartão de visita.

A maioria dos devs faz o contrário: passa meses caçando "a ideia genial", um problema que nem vive. Eu não precisei de pesquisa de mercado para saber que aquilo valia: eu mesmo pagaria para alguém resolver se eu não soubesse. Eu ajudei, por anos, muitos alunos da Codar.me a resolver isso também.

E essa é a primeira coisa que a IA não faz por você. Ela escreve o código em horas. Mas qual problema vale a pena resolver, isso ela não sabe — quem sabe é quem está vivendo ele.

Lançar feio no dia 3

Com a dor certa em mãos, o próximo erro seria sumir seis meses caprichando antes de mostrar para alguém. Isso tem nome: Build Trap. Você se convence de que falta "só mais uma feature", e o tempo evapora. No fim, o produto está lindo e ninguém usa.

Lancei no dia 3. Feio, incompleto, sem pagamento por pix, só cartão. No primeiro dia, entraram R$ 2.500.

E não estava nem perto de pronto. Mas feature não é progresso — progresso é alguém usando seu app e tirando dinheiro do bolso. Cada dia que você segura o lançamento é mais um dia de achismo não testado. E decidir essa hora é a segunda coisa que a IA não faz por você.

O mercado corrige o que você não vê

Tem uma frase que eu repito: nenhum projeto sobrevive ao primeiro contato com o usuário. Você acha que sabe o que as pessoas querem, até elas botarem a mão no produto.

Por isso instrumentei tudo desde os primeiros dias, antes de ter volume para medir. Eu precisava ver o que as pessoas faziam de verdade no produto. O que eu imaginava sozinho quase nunca batia.

Foi assim que achei o vazamento. O faturamento total subia e parecia ótimo, mas a conversão por device contava outra história: no desktop a pessoa convertia bem (16-18%), no mobile bem menos, menos de 5%. Calculei que deixei de ganhar R$ 16k nos dois primeiros meses. Eu estava pagando para trazer gente boa e travando ela na porta.

Arrumei o onboarding no mobile, só isso. A segunda metade dos R$ 100k entrou na metade do tempo da primeira.

Ler esse sinal é a terceira coisa que a IA não faz por você. O dado estava lá, mas alguém precisa olhar e decidir o que fazer com ele.

O que fica

Do zero a R$ 100k em 92 dias, sozinho. A IA acelerou cada linha de código. Mas ela não escolheu a dor, não lançou no meu lugar, e não leu o que o mercado respondeu.

Se você é dev e tira uma coisa daqui: constrói o que você mesmo precisa, lança antes de achar que está pronto, e deixa o mercado te corrigir. O resto, a IA acelera.

Tem uma armadilha em deixar a IA preencher os espaços por você: sem os teus fatos, ela não trava. Inventa o que é mais provável (essa é a natureza dela) e escreve com a confiança de um especialista, mesmo errando feio. Foi isso que me fez construir a Karvi de um jeito bem específico.